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A transformação que pode brotar quando adolescentes e jovens se juntam com objetivos em comum

Anderson (esquerda) e seus colegas de Paripiranga. Eles fazem parte da ARCAS- Associção Regional de Convivências Apropriada ao Semiárido.

Anderson Gravatá Matos é jovem, tem 19 anos e mora na cidade de Paripiranga. No último fim de semana, ele viajou cerca de 130 quilômetros e se juntou com outros jovens e adolescentes na comunidade do Boqueirão, em Tucano. Durante três dias, ele participou de oficinas, experimentou a vivência na comunidade e deixou sua marca no local.

O encontro foi promovido pelo projeto Habilitando para a Vida (ONG Humana Brasil) e teve como tema “juntos somos fortes”, cujo objetivo era despertar nos cerca de 40 participantes dos municípios de Tucano, Quijingue, Paripiranga e Cansanção análises autocríticas das relações entre o homem e a natureza. Durante os três dias, os adolescentes e jovens foram envolvidos em bate-papos sobre mídia e poder, o papel dos coletivos de jovens na garantia dos direitos previstos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), economia solidária, associativismo e práticas agroecológicas, além de promoverem apresentações culturais.

Diversos adolescentes trouxeram elementos das comunidades onde moram e fizeram apresentações culturais.

“Foi muito interessante estar aqui durante estes três dias porque faz com que a gente se envolva, conheça a cultura e a diversificação que há entre uma comunidade e outra, e a partir desse local que a gente veio, a gente pode sair daqui com ideias novas para implantar e deixar de forma mais concreta o que a gente quer para nossa comunidade. A gente leva coisas novas daqui para usar na nossa comunidade”, relata o jovem Anderson Gravatá.

No domingo, último dia da imersão na comunidade, os participantes realizaram um mutirão com moradores para construir um viveiro de mudas para a escola, onde também funciona a sede da Associação Comunitária do Boqueirão – Campinhos de Cima. “Foi algo sensacional, eu não tenho palavras para dizer. Foi um evento enriquecedor, tanto para mim, professora, quanto para toda a comunidade. É a primeira vez que a gente tem um evento como esse na nossa comunidade, foi um momento de aprendizado, a gente vê a parceria das pessoas, o companheirismo, o respeito pelo outro, isso é muito bom”, conta a professora Maria Jucileide.

À esquerda espaço da escola ainda com acúmulo de resíduos e ao lado espaço durante a construção do viveiro.

A dificuldade na coleta de lixo na comunidade obrigava a equipe escolar a reunir tudo no fundo da escola e atear fogo. Depois da intervenção promovida pelo intercâmbio, a realidade agora é outra. Onde antes o lixo degradava a beleza exuberante da natureza local, agora brotou a construção do viveiro de mudas, um sonho antigo da comunidade, como relata a professora Maria Jucileide. “O viveiro era um sonho da gente como comunidade, como associação, e esse sonho, na verdade, está se tornando praticamente realidade, porque os meninos estão ali praticamente terminando de fazer o viveiro, e a gente espera que esse evento não se acabe por aqui, que tenha outros eventos enriquecedores como esse”.

Participantes produziram material informativo depois da oficina de comunicação coordenada pelo jornalista Josevaldo Campos (à esquerda).

Atenta a cada passo dado pelos jovens e às mudanças que iam acontecendo em todo o entorno da escola, ela disse que vai envolver as crianças da comunidade na manutenção do viveiro. Ainda segundo a professora, as atividades realizadas servirão de base para os professores mostrarem às crianças, na prática, como a união de pessoas mobilizadas e engajadas em um único objetivo pode melhorar a realidade local.

“Eu nem queria ir embora”. Gabriela Barreto, de Tucano.

Gabriela Barreto, 14 anos, viajou um pouco menos que Anderson, que veio lá de Paripiranga. Moradora do povoado Cajueiro, em Tucano, ela não só participou das oficinas de troca de conhecimento, como colocou a mão na massa para ajudar na limpeza da área da escola. Ela diz ter saído da vivência realizada. “Eu achei ótimo porque a gente aprende com as coisas que eles ensinam, coisas novas. Eu nunca tinha pegado em uma enxada. Eu nem queria ir embora”, conta, sempre sorridente e educada a adolescente.

E era essa transformação pessoal um dos principais propósitos do encontro, como explica Ricardo Luiz de Assis, coordenador de projetos do Habilitando para a Vida. “Segundo Paulo Freire, ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo. Acredito que esse final de semana foi a oportunidade de criar um meio propício, espaço de diálogo interno e externo, em uma comunidade totalmente desconhecida, para que os adolescentes e jovens pudessem refletir sobre a atuação do coletivo em cada comunidade, bem como suas ações como indivíduo parte de um coletivo. Acredito que todos nós, educandos, educadores, voluntários e membros da associação comunitária saímos modificados de alguma forma. Espero que os frutos se tornem sementes em cada comunidade representada”.

Durante o encontro, o grupo fez uma homenagem à adolescente tucanense Fabiana Jesus dos Santos, encontrada morta em maio deste ano em um tanque próximo à comunidade onde ela morava.

Homenagem à adolescente tucanense Fabiana Jesus dos Santos.

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